O direito à voz e ao amor na praça pública

Dinheiro público, política e interesses privados mesclam religião e abuso de poder à beira mar

Com o número de evangélicos em pleno crescimento no Brasil, nada mais natural para uma estância turística do que atrair esse público para incrementar o movimento do comércio, dos hotéis e dos restaurantes fora dos períodos de alta estação. Não é à toa que a Prefeitura de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, instituiu, em 2009, o Glorifica Litoral, classificado em seu site como “maior evento Gospel do Brasil”. Mas a edição desse ano, que contou a presença do pastor/deputado Marco Feliciano em seu encerramento, ficará marcada pela detenção de duas jovens que “ousaram” se beijar na Rua da Praia, atraindo a ira do polêmico presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Ele, aos brados no microfone, exigiu que a Guarda Civil Metropolitana levasse as meninas algemadas e presas, no que foi prontamente atendido. Ao ouvir os gritos de protesto das garotas agredidas na ação, disse ainda que seriam “cachorrinhos latindo”.

O fato, ocorrido no último dia 15 de setembro, levou a diversas notícias e análises mais ou menos equivocadas nos noticiários locais e nacionais. Poucas matérias, contudo, levantam alguns dos pontos principais do imbróglio. Em primeiro lugar, cabe reafirmar a legitimidade de se protestar em praça pública. Afinal, o local não era um “templo” como afirmou o pastor/político, mas um dos locais mais frequentados da cidade, sem cercas, sem grades, sem controle de entrada como deve ser toda praça. Segundo, não existe no Brasil legislação que proíba o beijo, uma manifestação de afeto que não é considerada sequer ato libidinoso, muito menos atentado ao pudor. E, por último, o deputado não tem autoridade para exigir ou ordenar ações da GCM.

O evento, como exposto acima, não foi realizado com fundos privados das igrejas, mas por iniciativa e com dinheiro grosso da prefeitura, cujo ocupante atual,  Ernane Primazzi, reeleito em 2012, coincidentemente pertence à mesma sigla de Feliciano, o Partido Social Cristão. Além do grande palco coberto e com infraestrutura usada para a gravação dos shows na Praça Municipal de Eventos, foi montada uma área de alimentação com 40 barracas, uma “Megastore” com mais 500 títulos entre bíblias, livros e DVDs e o apoio das Secretarias de Saúde (com equipes de resgate e pronto atendimento médico), Segurança Urbana, Tráfego, GCM e Polícia Militar para garantir a segurança de TODOS os mais de 350 participantes esperados, sejam cristãos ou não.

Pode-se até discutir o interesse econômico de uma administração, que deveria ser laica, na promoção de um evento de caráter declaradamente identificado com uma fé específica, por maior número de seguidores que tenha. O que não se poderia aceitar é o proselitismo, político ou religioso, às custas do erário público. E, pior do que isso, o abuso, a perseguição, repressão e prisão de pessoas que não comungam da mesma crença ou ideologia. A autoridade, que se pense divina ou terrena, deveria ser usada para o bem comum. Como teria afirmado alguém há 2 mil anos, os dois mandamentos mais importantes seriam: amar a Deus sobre todas as coisas (a aceitação de que há algo acima de nós) e ao próximo como a ti mesmo (na Terra somos todos iguais).

fotos: http://www.mediaquatro.com

 

Direitos Humanos para quem?

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Uma resposta para “O direito à voz e ao amor na praça pública

  1. Acredito que estamos a um passo de reviver os tempos da Inquisição, “adaptada” ao século XXI. Como é possível que em uma suposta democracia, em um Estado que deve ser laico, um fundamentalista da estirpe de Feliciano ainda continue presidindo uma Comissão de Direitos Humanos e Minorias? O povo realmente precisa fazer valer a sua voz!

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