A ditadura pelas lentes de Evandro Teixeira

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por Vinicius Souza / http://www.mediaquatro.com

Na semana em que lembramos os 50 anos do golpe civil-militar que jogou o Brasil numa ditadura de pelo menos 21 anos, já que seus efeitos seguem sendo sentidos todos os dias, não poderíamos deixar de mostrar o trabalho do mais reconhecido fotógrafo do período: Evandro Teixeira. Muitas das imagens icônicas que ilustram as centenas de eventos e manifestações da efeméride, ainda que nem sempre creditadas, foram feitas por esse baiano de Irajuba.Teixeira, por exemplo, era o único civil dentro do Forte de Copacabana na madrugada de 1º de Abril de 1964, quando fez o registro super-contrastado dos soldados sob forte chuva esperando a chegada dos comandantes militares, como o marechal Castello Branco (que depois seria indicado presidente pelo regime) para reuniões que definiriam o futuro do País. Teixeira tinha um amigo no exército e se infiltrou sem se identificar como jornalista. Ele presume que os militares acharam se tratar de um fotógrafo do exército. (http://noticias.terra.com.br/brasil/infiltrado-fotografo-registrou-o-comeco-do-regime-militar,a9d4111cb00f4410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html)

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Repórter fotográfico do Jornal do Brasil na época, são dele também as imagens mais conhecidas da Passeata dos 100 mil, de junho de 1968, no Rio de Janeiro. Talvez a maior manifestação de rua contra a ditadura antes da promulgação do Ato Institucional nº 5, que proibiu definitivamente os protestos, a passeata foi a resposta da população aos crimes que já ocorriam, como o assassinato do estudante Edson Souto pelo comandante da tropa da PM Aloisio Raposo durante a repressão ao movimento estudantil. Teixeira também cobriu o enterro do estudante e os confrontos com a polícia no velório e na missa realizada na igreja da Candelária.Muitas fotos suas foram censuradas pela ditadura, tantas que nem ele sabe dizer quantas. Mas outras têm histórias engraçadas, como a das libélulas pousando sobre as baionetas dos soldados. A delicadeza da imagem e seu contraste entre liberdade e a dureza do regime foram imediatamente compreendidos pelo editor do jornal, que a publicou na primeira página do diário carioca. O ditador da vez, General Costa e Silva, no entanto, não apreciou a ironia de ter sua foto no mesmo evento publicada sem tanto destaque no meio do caderno de política e mandou prender o fotógrafo, levando a uma noite na cadeia “para aprender a respeitar o presidente”.

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Assim como a ditadura segue tentando ocultar seus segredos ainda hoje, também Teixeira continua revelando as verdades daqueles dias e suas consequências atualmente, com a mesma lucidez e precisão no olhar. Não é à toa que o grande Carlos Drummond de Andrade dedicou um poema a Evandro e suas imagens:

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Diante das fotos de Evandro Teixeira
Carlos Drummond de Andrade

A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo sob a luz,
e dois olhos não são bastante
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa,
o mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das imagens.

Fotografia – é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência cristal
do tempo no papel.

Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta?
Mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então
a lembrar como exorcizar?

Marcas de enchente e do despejo.
O cadáver insepultável.
O colchão atirado ao vento.
A lodosa, podre favela.
O mendigo de Nova York.
A moça em flor no Jóquei Clube.

Garrincha e Nureyev, dança
de dois destinos, mães-de-santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois são fotos.

Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo
a viajar, a surpreender
a tormentosa vida do homem
e a esperança a brotar das cinzas.

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