Amanhã vai ser pior

Ataque a Coronel da PM pode levar a um novo nível de conflitos e criminalização dos protestos

Textos e fotos por Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá/ http://www.mediaquatro.com

As manifestações recentes contra os aumentos nas tarifas de transporte no Brasil remetem à montagem de grupos pelo Passe Livre no Fórum Social Mundial de Porto Alegre em 2005 e à já histórica Revolta da Catraca, ocorrida em Florianópolis no mesmo ano. De lá pra cá, o movimento se espalhou pelo Brasil, principalmente nas universidades públicas e por meio do contato com grupos mais politizados das periferias. A única constante é a forte repressão policial. Em fevereiro de 2012, depois da imensa violência policial durante a Marcha da Maconha de 2011 e sua posterior liberação pelo Supremo Tribunal Federal, seis militantes do Movimento Passe Livre – MPL, se acorrentaram no saguão da Prefeitura de São Paulo contra o aumento da passagem de R$ 2,70 para R$ 3,00. A Tropa de Choque e a Guarda Civil Metropolitana puseram fim à manifestação detendo e ferindo inúmeras pessoas, inclusive dois vereadores pelo Partido dos Trabalhadores – PT, que na época apoiavam o movimento. A prefeitura, como o Governo Federal agora, lamentou a “violência usada pelos manifestantes”. O Governo do Estado prometeu, como sempre, “apurar os excessos”. E as ilegais “detenções para averiguação” se tornaram norma.

Marcha da Liberdade - Avenida Paulista - 2011

Marcha da Liberdade – Avenida Paulista – 2011 – Foto: MediaQuatro – http://www.mediaquatro.com

Assim, não deveria ser surpresa para ninguém bem informado, e “inteligência” das polícias deveria servir para isso, que haveria protestos contra um novo aumento em 2013. Do mesmo modo, a estratégia Black Bloc também é de conhecimento público pelo menos desde os protestos contra o Encontro da Organização Mundial do Comércio – OMC, em Seatle em 1999 e do G8 em Gênova em 2001. Nada aqui é novo, ou “genuinamente brasileiro” como uma jabuticaba. Ainda assim, de nada adiantaram as manifestações majoritariamente pacíficas do início de junho. Algumas pichações, uma ou outra vitrine quebrada, sacos de lixo incendiados e muito, muito gás lacrimogêneo, de pimenta, bombas de “efeito moral”, balas de borracha e cassetadas. Nas manchetes dos jornais, a expectativa pela Copa das Confederações.

Manifestantes enfrentam sem violência o gás lacrimogêneo em 07/06/2013 - Foto: Mediaquatro - www.mediaquatro.com

Manifestantes enfrentam sem violência o gás lacrimogêneo em 07/06/2013 – Foto: MediaQuatro – http://www.mediaquatro.com

O cenário só iria se alterar significativamente no dia 11 de junho. As manifestações engrossavam a cada dia, mas escalada se daria apenas depois das imagens do PM Vanderlei Vignoli sangrando atingido por uma pedrada e, de arma na mão, cercado por manifestantes. A foto acirrou os ânimos do Governo Estadual, da polícia e dos editorialistas dos jornais (como a Folha e o Estadão), âncoras de TV e colunistas das revistas semanais que no dia seguinte berravam em quase uníssimo por medidas mais fortes contra os “baderneiros”, os “vândalos”, os “arruaceiros”. O resultado foi a batalha campal de 13 de junho, que atingiu indiscriminadamente manifestantes pacíficos, ativistas Black Bloc, jornalistas e cidadãos sem qualquer envolvimento com as manifestações.

Advogado que questionava detenção de menor na Paulista em 13/06/2013 tm de fugir das bombas e cassetadas da PM. Foto: MediaQuatro - www.mediaquatro.com

Advogado que questionava detenção de menor na Paulista em 13/06/2013 tem de fugir das bombas e cassetadas da PM. Foto: MediaQuatro – http://www.mediaquatro.com

A violência da PM, cujos soldados miraram nos rostos dos jornalistas, atingindo dois nos olhos e cegando um, levou a uma inflexão geral. O Governo do Estado chegou a proibir o uso das balas de borracha para dispersar manifestantes no centro de São Paulo e nos bairros chiques (apesar de continuar usando essas armas nas periferias para, por exemplo, executar reintegrações de posse). Aos poucos, contudo, os atos voltaram a ser fortemente reprimidos. Em sete de setembro, novamente estudantes e jornalistas foram alvos deliberados dos policiais. Até o dia 21 outubro, quase 100 jornalistas, inclusive de veículos importantes como TV Globo, TV Bandeirantes e Folha de S. Paulo, foram feridos pela polícia em manifestações desde o início de junho. Contudo, quando as associações de jornalistas e a Grande Imprensa ensaiavam um novo pedido geral de tomada de consciência por parte das Forças de Segurança, a exemplo do que aconteceu após 13 de junho, surge um novo mártir nas fileiras fardadas, dessa vez de maior patente.

Fotojornalistas Rodrigo Zaim (do R.U.A Fotocoletivo) e Paulo Ishizuka (Mídia Ninja) são agredidos pela PM em 7/9/2013. Foto: MediaQuatro - www.mediaquatro.com

Fotojornalistas Rodrigo Zaim (do R.U.A Fotocoletivo) e Paulo Ishizuka (Mídia Ninja) são agredidos pela PM em 07/09/2013. Foto: MediaQuatro – http://www.mediaquatro.com

Em mais uma manifestação chamada pelo MPL, juntando cerca de 3.000 pessoas, um pequeno grupo entra no Terminal D. Pedro II e começa a depredar caixas eletrônicos, catracas e ônibus sem qualquer ação da PM para sua neutralização, de forma semelhante à ocorrida no dia 18 de junho no Centro da cidade. Eis então que surge, sozinho, o Tenente Coronel Reynaldo Simões Rossi, para “negociar” com os Black Bloc, que o cercam e espancam. Essa reportagem já registrara uma negociação do tipo com o Cel, dia 7 de junho, em plena esquina da Consolação com a Avenida Paulista para garantir que o pequeno grupo de cerca de 300 bravos manifestantes (depois de mais de 4 mil dispersados entre a Marginal e o Largo de Pinheiros) pudessem seguir em paz até o MASP. Na ocasião ele afirmou com “controlava seus homens” mas não explicou os motivos dos ataques indiscriminados de bombas horas antes, quando sequer havia pichadores, Black Blocs ou mesmo graves impedimentos ao tráfego.

Cel Rossi negocia a entrada pacífica de grupo na Paulista em 7/6/2013 mas não explica bombas. Foto: Mediaquatro - www.mediaquatro.com

Cel Rossi negocia a entrada pacífica de grupo na Paulista em 07/06/2013 mas não explica bombas. Foto: Mediaquatro – http://www.mediaquatro.com

O fato é que com as imagens do Cel pedindo para a polícia “Vai com calma, segure a tropa, não deixe que percam a mão” parecem não ter tido qualquer efeito sobre a corporação. Ao todo, 98 pessoas, incluindo dezenas de menores de idade e toda a Fanfarra do M.A.L que anima as manifestações foram detidas. Como somente dois manifestantes permanecem presos por algum tipo de prova encontrada pela PM, todas as demais detenções foram ilegais. A maior parte dos detidos foi encurralada pela polícia embaixo de um viaduto distante do Terminal D. Pedro II e sob uma chuva de bombas maior do que a usada no dia 13 de junho. Enquanto isso, os tais “vândalos” destruíam agências bancárias e lojas a quilômetros de distância. Há relatos de todo tipo de humilhação, incluindo ordens para mulheres se despirem na rua para “provarem que não eram travestis” e revistas íntimas com lanternas acessas nas vaginas. Até mesmo os paramédicos do Grupo de Apoio ao Protesto Popular, que atendem tanto manifestantes como outros civis e policiais, se necessário, foram constrangidos, deitados no chão e revistados.

Paramédico no protesto contra o governo Alckmin em 02/08/2013. Foto: MediaQuatro - www.mediaquatro.com

Paramédico no protesto contra o governo Alckmin em 02/08/2013. Foto: MediaQuatro – http://www.mediaquatro.com

Na véspera dessa manifestação, a Anistia Internacional já havia lançado um manifesto contra a criminalização dos protestos e a violência policial no Brasil, alertando para o risco de quebra do Estado Democrático de Direito. E isso não é de forma alguma descabido, já que no Rio de Janeiro, diversos presos no protesto dos professores de 15 de outubro estão sendo enquadrados dentro da recente Lei sobre Organizações Criminosas (Lei 12850 de 02/08/2013), que prevê penas de 3 a 8 anos de reclusão, e dois detidos em 21 de outubro em São Paulo foram denunciados na caduca Lei de Segurança Nacional, dos tempos da Ditadura (denúncia que felizmente não foi aceita). Pior, a entidade Advogados Ativistas publicou em sua página no Facebook que o Delegado da Seccional da Capital, Kleber Antônio Torquato Altale, solicitou oficialmente que todos os detidos sejam fichados, em “Caráter Reservado”, não somente pelo nome, idade e RG, mas também por e-mail, telefone, filiação partidária e grupos com os quais se identificam.

Recomendação para fichamento "em Caráter Reservado" dos detidos ilegalmente. Foto: Advogados Atvistas - https://www.facebook.com/AdvogadosAtivistas

Recomendação para fichamento “em Caráter Reservado” dos detidos ilegalmente. Foto: Advogados Atvistas – https://www.facebook.com/AdvogadosAtivistas

Os manifestantes podem continuar gritando nas ruas, como sempre fizeram, que “amanhã será maior” e conseguir arregimentar cada vez mais gente, como aconteceu dia 17 de junho. Mas nuvens negras cobrem o horizonte e se levarmos em consideração os fatos ocorridos depois do soldado ferido em 11 de junho, parece ser mais adequado para o momento a troca da palavra de ordem para “amanhã será pior”. Afinal, o porta-voz do Centro de Comunicação Social da PM, major Mauro Lopes, afirmou no domingo, 27 de outubro, que “o Estado vai dar uma resposta muito forte a esse bando de criminosos”. Oxalá estejamos errados.

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2 Respostas para “Amanhã vai ser pior

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