“o povo unido é gente pra caralho”

São Paulo, 17 de junho de 2013: o dia histórico que reuniu gerações contra, principalmente, o aumento do transporte público, pela revogação do aumento de 0,20 centavos no ônibus e metrô. Um relato pessoal em três frentes, por três jornalistas, Natalia Mendes, Moriti Neto e Thiago Domenici. E mais; a ida do Nota de Rodapé ao programa Roda Viva e um apanhado das discussões durante a entrevista com os representantes do Movimento Passe Livre.

Vinte centavos, sim

(Moriti Neto)

“A Copa das Confederações parece que nem está acontecendo. Ou que está acontecendo só na Globo”. A frase corre entre os jornalistas que estão nas dependências da TV Cultura, em São Paulo, na noite desta segunda-feira, dia 17, à espera do programa Roda Viva, no qual este NR esteve presente na bancada de tuiteiros para participar da entrevista com integrantes do Movimento Passe Livre (MPL). Não que o futebol tenha sido realmente esquecido, mas as palavras representam muito da sensação que se espalha pela capital paulistana após a manifestação que se estendeu pelas ruas da cidade. O ato foi tão impactante que, de fato, outros eventos ficaram infinitamente menores.

Tão intensos têm sido os protestos realizados há três semanas – com crescente incorporação de participantes – que acabam por produzir debates proporcionalmente fortes. Bastante disso é causado pela heterogeneidade do movimento. Várias tendências se encontram nele. Não de organizações político-partidárias constituídas. O que se vê é outro tipo de mobilização. De diversas cores e classes, elas têm no valor concreto, nos R$ 0,20 de aumento da passagem de ônibus em SP, o eixo que as une. Essa discussão é essencial.

Qualquer tentativa de rotular as manifestações e tirá-las do principal mote, o da reivindicação pela democratização do transporte coletivo, algo que não passa somente pela tarifa, mas pela revisão do modelo, é veementemente refutada por membros do MPL. “O Movimento Passe Livre não nasceu agora. É fruto de organização de anos. Muito tempo fazendo um debate que interessa à grande parcela da sociedade, pois isso passa pelo direito de se locomover. Assim, é claro que não perdemos de vista o principal das manifestações, que são, sim, os R$ 0,20”, explica ao NR Lucas Monteiro de Oliveira, professor de história e integrante do MPL, logo depois do fim do Roda Viva.

Tal firmeza de argumento não evita que análises apressadas se construam. À direita e à esquerda surgem comentários que buscam enquadrar o movimento. A bola da vez, na voz dos conservadores, é classificar as ações como acéfalas e carentes de lideranças, inclusive buscando estimular a ideia de que qualquer ato de violência policial-estatal se torna mais provável “pela falta de organização das manifestações”, como tentou sugerir o coronel reformado da Polícia Militar, José Vicente Filho, entre os entrevistadores na bancada do Roda. “Com mais de 100 mil pessoas, não houve violência hoje. E não haveria na quinta passada, se não fosse a agressividade da PM, estimulada por vários atores. Estamos mobilizados horizontalmente, mas muito bem organizados. Se não estivéssemos, como seria conduzida uma manifestação desse porte?”, destaca Lucas.

Por outro lado, há correntes esquerdistas que, perdidas na incapacidade de renovação do próprio pensamento, seguem na avaliação de que é necessária a aproximação com “gente gabaritada” para fortalecer e legitimar os protestos. Óbvio que os “gabaritados” seriam os sindicatos. Justamente o movimento sindical que, seduzido pelas benesses do poder público, tanto se perdeu desde que o PT assumiu o Governo Federal. “Dizer que o movimento não tem organização, que precisa de lideranças, não condiz com o real. A diferença é que nossa articulação é horizontal, o que não invalida nossas escolhas políticas. Desde as deliberações, passando pelos trajetos até as aparições públicas, todas as iniciativas são pensadas politicamente”, diz Nina Cappello, estudante de direito da Universidade de São Paulo (USP) e também membro do MPL.

Como se observa, qualquer busca por rotular apressadamente a multidão que protesta em São Paulo, parece mais uma jogada para arremessar o movimento à vala comum dos discursos vazios, casos do “Pelo fim da corrupção” e “Acorda, Brasil”. Tais lemas seriam válidos se não carecessem de direção. Na verdade, são vulneráveis a manobras populistas. Nesse caso, vale lembrar a caça aos comunistas da ditadura militar. Generalizante, o argumento funcionou apenas como ferramenta de marketing que mobilizou setores mais conservadores da sociedade e promoveu o massacre dos direitos civis.

Fora isso, existe o despreparo em lidar com novas formas de organização popular. Maneiras de agir sem hierarquia evidente e que, naturalmente, contêm menor grau de paternalismo. De um jeito ou de outro, enquanto os que avaliam a situação, governantes e mídia, seguirem sem pisar na rua, sem encarar os rostos de múltiplos tons e sem escutar as vozes que reivindicam a solução para os problemas concretos da população, pode-se até adiar a redução do preço da passagem de ônibus, porém nada fará perder o que esse movimento já conquistou: o amadurecimento político que assusta as formas velhas de gerir o que é público.

“São Paulo se reencontrou”
(Thiago Domenici)

A ponte Estaiada, ocupada por manifestantes

É difícil dar um início para esse texto que não saia do óbvio sentimento de energia pura, de grande felicidade que acometeu todos os que estiveram nas ruas de São Paulo ontem para protestar pela redução da tarifa de transportes. Na esteira dessa bandeira do Movimento Passe Livre (MPL), da revogação do aumento de 0,20 centavos, somado aos lamentáveis episódios de violação dos direitos humanos praticados com brutalidade e arrogância pela Polícia Militar de São Paulo na última quinta-feira, mais de 100 mil pessoas levaram sua voz a urbes paulistana.

Uma voz que uniu gentes – muitas – de todos os tipos, caras, idades, partidárias e apartidárias, marinheiros de primeira manifestação, pais e mães em apoio aos filhos, brasileiros em geral, que tentavam, a medida que engrossava a manifestação, compreender aquilo tudo. O jeito, meus caros, foi andar. E andamos um bocado. A rua tinha forma e direção. Estava tomada. Era nossa e não dos carros.

Mas vale dizer que o Brasil não estava dormindo. Pelo menos não o Brasil dos movimentos sociais fortes, de gente que já vem apanhando na rua faz tempo, se mobilizando e lutando sem ter a merecida voz dos meios de comunicação, os mesmos que dias atrás lançaram editorias fascistas e estavam às voltas com sua habitual manipulação de informação.

A coisa toda começou a partir do Largo da Batata, onde se deu a concentração, que depois rumou pela avenida Brigadeiro Faria Lima e, a partir dali, dividiu-se em três blocos: uma turma que seguiu para a Avenida Paulista, outra para a Ponte Estaiada e outro grupo ao Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo Estadual.

“Que coincidência, sem polícia não existe violência”, foi um dos gritos que reverberou durante a caminhada totalmente pacífica. Tão pacífica, que diante da primeiro vacilo de alguém, o povo repreendia. Aliás, hoje, se alguém tinha duvida do significado do termo “povo unido”, já aprendeu na prática.

Na Faria Lima, dos prédios e estabelecimentos comerciais, gente sacudia bandeiras brancas como forma de apoio. Outras dançavam. Tudo, sob aplausos e gritos de “vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Também foi curioso o festival de cartazes, que seria impossível descrever aqui de tantos que eram. Lembro de um, que me chamou a atenção: “nós fazemos a nossa própria nação”.

Os protestos, vale lembrar, levaram, dizem por aí, mais de 230 mil pessoas (foram muitas mais, sem dúvida) às ruas em 12 capitais nesta segunda-feira. Por fim, é indecifrável saber no que vai dar essa mobilização toda. A cabeça ainda está a milhão. Mas a sensação, depois da barbárie da PM, é que São Paulo se reencontrou consigo mesma. Deu uma reposta fantástica, cheia de entusiasmo e dormiu feliz para acordar revigorada nesta terça-feira. Amanhã vai ser maior? Tomara que sim.

“O que ouvi hoje não foi uma voz só”
(Natalia Mendes)

Avenida Paulista tomada por manifestantes

Lá pelas quatro da tarde, fomos para o ponto pegar o ônibus com destino ao Largo da Batata. Já encontramos alguns conhecidos e, logo no ponto seguinte, entraram vários adolescentes carregando cartazes, rostos pintados e energia pra dar e vender. Com isso, o ônibus foi tomado por manifestantes.

Ainda no caminho, a expectativa que tentava se disfarçar saiu pela garganta dos passageiros que já chamavam “Vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Pelas janelas, podíamos ver pessoas descendo a pé e cantando também. Não dava pra esperar o tempo dos veículos motorizados, saltamos alguns pontos antes para nos juntar aos outros.

No Largo, muitos rostos familiares, amigos e conhecidos. Recebi uma flor e um belo sorriso. No caminho, a mesma coisa. Encontros rápidos, abraços, sorrisos, alegria. Um clima leve. Não vi polícia nenhuma. “Que coincidência, não tem polícia, não tem violência”. Mas vi funcionários de uma famosa lanchonete dançarem animados, pessoas nas janelas acenando com lenços e lençóis brancos para os manifestantes, curiosos observando da calçada e batendo palmas.

A tensão inicial, a expectativa, o receio pelas balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram se perdendo.

Não sei dizer o quanto andamos, algumas horas. Paramos em uma esquina e ficamos observando aquele mar de gente. Era muita gente, mas muita mesmo. Era lindo, era impressionante. Isso que a manifestação tinha se dividido em três. Não conseguíamos imaginar quantas pessoas ocuparam as ruas. Ainda não sabemos ao certo.

Li relatos de gente que nem imaginei que estivesse lá. Soube de cantos que não ouvi. Encontrei (e vi de longe) pessoas que não esperava, que não sabia que estariam ali. Vi fotos de lugares que não passei. Parece que foram várias manifestações pela cidade. Todas parceiras.

O que ouvi hoje não foi uma voz só. Foram muitas, muitas mesmo.

Imagens: Joel Silva/Folhapress / Moacyr Lopes Júnior/Folhapress /Mídia Ninja.

Texto originalmente publicado no blog Nota de Rodapé

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