Revoluções morais: uma questão de honra

Em tempos de muitas lutas contra a ainda persistente violência contra as mulheres, de lobby de grupos religiosos no Congresso Nacional (Estado laico?), de projeto de lei com vista a proibir publicidade com casais gays no Brasil (PL 5.921/2001, agora com texto substitutivo) – e da lei assinada recentemente pelo presidente russo, Vladimir Putin, que proíbe qualquer ato de “propaganda homossexual” em presença de pessoas menores de idade, com multa prevista de até 1 milhão de rublos (cerca de RS 70 mil) para quem o fizer –, entre outros tantos cenários que apresentam as facetas da moral(?) e/ou dos (maus) costumes de quem manda e quer mandar no Brasil e no mundo, o livro do filósofo Kwame Anthony Appiah, O código de honra – Como ocorrem as revoluções morais, é uma leitura mais do que indicada.

Professor da Universidade de Princeton e há 30 anos radicado nos Estados Unidos, Appiah nasceu na Inglaterra (1954) e foi criado em Gana. Considerado um dos mais importantes filósofos da atualidade, sua postura foi muito bem definida pela editora que publicou sua obra, a Companhia das Letras: ele “não se abstém de defender uma ética da identidade e das diferenças, e de valorizar, acima de tudo, o bem mais precioso: o direito à vida”.

“O que podemos aprender sobre a moral examinando as revoluções morais?”, foi a questão que impulsionou o autor a escrever O código de honra. Para tal, Appiah tomou quatro casos da história mundial: o fim dos duelos na Inglaterra; dos códigos da China oitocentista, que exigiam que as mulheres das classes superiores amarrassem os pés; da escravização sistemática de africanos e afrodescendentes no mundo atlântico; e sobre a violência de homens contra as mulheres, principalmente no Paquistão – e a prática de morte por questão também de honra, entre muitas e diversas agressões. Além disso, uma análise sobre o “respeito” no cerne da honra aponta alguns dos comportamentos comuns inclusive nos dias atuais.

Resumir as análises de Appiah seria, do meu ponto de vista, “desonrá-lo”. Nada melhor, então, do que uma síntese desses “códigos de honra” elaborada por ele mesmo:

“’O que eles estavam pensando?’, perguntamos sobre nossos antepassados; mas sabemos que, daqui a um século, nossos descendentes perguntarão a mesma coisa a nosso respeito. Quem sabe o que lhes parecerá mais estranho? Os Estados Unidos têm 1% de sua população encarcerada e submetem muitos milhares de prisioneiros a anos de confinamento em uma solitária. Na Arábia Saudita, as mulheres não podem dirigir. Existem países onde hoje a homossexualidade é punida com prisão perpétua ou condenação à morte. E há também a realidade do confinamento na pecuária e na avicultura industrial, em que centenas de milhões de mamíferos e bilhões de aves têm uma existência curta e miserável. Ou, ainda, a extrema pobreza, tolerada dentro e fora do mundo desenvolvido. Um dia, as pessoas vão se pegar pensando que não só uma antiga prática era errada e a nova é certa, mas também que havia algo de vergonhoso nos velhos usos.” (p. 16)

O código de honra – Como ocorrem as revoluções morais

Kwame Anthony Appiah 

Companhia das Letras, 2012, 256 páginas.

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