O corpo na cidade

2CARNE E PEDRAEm seu ensaio Carne e pedraO corpo e a cidade na civilização ocidental, o historiador e sociólogo Richard Sennett, professor da London School of Economics e da Universidade de Nova Iorque, resgata, esmiúça e analisa as interligações entre corpo humano – seus sentidos e privações, expressões, sensações… – e arquitetura, urbanismo e vida cotidiana, em diferentes cidades e momentos históricos. É “uma história da cidade contada por meio da experiência corporal do povo”, mas  “[…] é mais do que um catálogo histórico das sensações físicas no espaço urbano”, como diz o autor, que há mais de 15 anos começou a investigar, com seu amigo Michel Foucault, a história do corpo.

História e estudo em que, entre muitos aspectos, Sennett apresenta os retratos dos vínculos entre o povo e o espaço urbano nas construções e vias; dos projetos que fazem, e desfazem, a união da diversidade em lugares públicos; da fragmentação metropolitana em territórios econômicos; da atenção ou da indiferença do “corpo cívico”, andando a pé pela pólis ou deslocando-se de carro pela moderna metrópole ou em rodovias, veloz, reforçando a “sensação de desconexão com o espaço”. São, como sempre, mas de outra forma, problemáticas sociais e individuais, estéticas, científicas, espaciais.

Na primeira parte, os “poderes da voz e dos olhos” apresentam o modus vivendi e a nudez dos cidadãos da Atenas de Péricles – e de tempos de Guerra do Peloponeso, de conflitos entre homens e mulheres, mas também do apogeu ateniense; a Roma de Adriano, que concluiu a construção do Panteão, e também os primeiros cristãos romanos.

A seguir, com a Paris de Jean de Chelles e de Humbert de Romans estão, por exemplo, as crenças cristãs dando forma ao desenho urbano e aos refúgios dos “espremidos” pela então nova economia de mercado, seguidas pela sina do povo judeu na Veneza renascentista

Na terceira parte, vê-se os novos rumos tomados com os também novos conhecimentos científicos-anatômicos e a “revolução” de Harvey, no século XVII, bem como com a Paris de Boullée e a Londres de E.M. Forster – e o triunfo individual. Por fim, a Nova Iorque de hoje, multicultural, é o lócus motivador das observações de Sennett sobre povo x cidade.

Mas qualquer tentativa de descrever Carne e Pedra é ínfima dada a complexidade da experiência dos corpos nas cidades, desenredada, no entanto, pelas múltiplas conexões que Richard Sennett estabelece. A obra faz, no mínimo, com que o leitor, passivo ou ativo na e/ou para com a sua cidade, jamais sinta a sua relação com os espaços urbanos da mesma forma.

Carne e pedra – O corpo e a cidade na civilização ocidental

Richard Sennett

BestBolso, 2010, 417 págs.

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