Custo Efetivo Total e a Rebimboca da Grampolheta

“Se é possível complicar, por que simplificar?” poderia ser o subtítulo deste artigo, daí a “Rembiboca da Grampolheta” no título, expressão que eu sempre usei para definir “coisas”, quando eu não faço a menor ideia do que sejam.

A “Rebimboca da Grampolheta” no caso aqui é o Custo Efetivo Total (CET). Você sabe o que é e para que serve?

Bom, vamos por partes.

Para que serve o CET?

Serve para comparar alternativas de empréstimos ou financiamentos no que se refere a quanto custam. Seria, mais ou menos, como comparar produtos pelos seus preços. Pense no CET como o preço de um empréstimo/financiamento: quanto menor for o CET, mais barato é o empréstimo/financiamento.

Mas o CET é um valor em reais?

Não. O CET é uma taxa anual. Mas ainda assim vale o raciocínio: quanto menor essa taxa anual, mais barato é o empréstimo/financiamento.

Quer dizer então que um empréstimo/financiamento com CET mais baixo é sempre melhor que o empréstimo de CET mais alto?

Depende, é a resposta.

Depende do que?

Vamos voltar aos sapatos, porque o raciocínio é o mesmo. Se você encontrar dois sapatos exatamente iguais – no caso do sapato, seria mesmo modelo e qualidade – em duas lojas diferentes, o de menor preço seria sempre melhor.

No caso de empréstimo/financiamento é a mesma coisa. Dois financiamentos serão iguais se tiverem:

(a) o mesmo tipo de garantia: financiamentos de carros, de imóveis, consignados, crédito pessoal são créditos com tipos diferentes de garantias;

(b) o mesmo valor financiado: que é o valor liberado para quem toma o empréstimo/financiamento MAIS taxas e impostos recolhidos no momento da contratação do empréstimo/financiamento;

(c) o mesmo número de prestações.

Então, se dois empréstimos/financiamentos forem iguais, o de menor CET é o melhor. Mas se não forem iguais, o CET é apenas um dado a mais. Eventualmente, as características do empréstimo/financiamento de maior CET é o que você precisa. Seria como precisar comprar um sapato que é mais caro – e vale o que custa.

Mas vem cá, se os dois empréstimos/financiamentos têm o mesmo tipo de garantia, o mesmo valor financiado e o mesmo número de prestações, o melhor não vai ser o que tiver a menor prestação?

Com certeza, vai. E esta comparação é mais fácil de fazer.

Então, por que precisamos olhar o CET?

Porque o CET é útil em situações nas quais a comparação do valor da prestação não serve para medir qual empréstimo/financiamento é o mais barato.

Por exemplo, o/a gerente do banco/financeira oferece duas linhas de crédito, uma com menor e outra com maior número de parcelas. A parcela do empréstimo/financiamento mais longo (36 prestações mensais, por exemplo) vai ser menor que a do empréstimo/financiamento com menor número de prestações (24 prestações mensais, por exemplo), mas não será necessariamente o mais barato.

Veja abaixo os resultados de simulações feitas no site do Bradesco, para um empréstimo de R$ 1.000,00 no Crédito Pessoal:

cet_bradesco_24

cet_bradesco

E, eventualmente, o que você precisa é do empréstimo mais caro – se não pode, por exemplo, pagar o valor da prestação do empréstimo mais barato, nem consegue reduzir o valor da prestação dando mais garantias.

Entendi: no exemplo, o empréstimo a ser pago em 36 meses tem a menor prestação (R$ 75,97) mas tem também o maior CET (114,50% ao ano), enquanto o empréstimo de 24 meses tem prestação maior (R$ 84,33), mas tem um CET menor (106,19% ao ano).  Significa que o empréstimo de 36 meses é mais caro que o de 24 meses?

Exatamente.  E até faz sentido, afinal ter mais tempo para pagar (ou, o que dá no mesmo, pagar menos por mês) vale alguma coisa, não vale? Se você observar, a diferença está na taxa de juros efetiva, que é de 6,32% ao mês no empréstimo de 36 meses e de 5,95% ao mês no empréstimo de 24 meses. Esta é a situação normal dos juros: quanto maior o prazo para pagar, maior a taxa de juros (1).

Ou seja, quanto maior o prazo do empréstimo/financiamento, mais se paga de juros, não só porque a dívida diminui menos por mês mas também porque a taxa de juros pode ser maior.

Mas olha só os resultados do simulador disponível no site do Itaú:

cet_itau_24

cet_itau

Isso mesmo: no Itaú, o CET do empréstimo de 36 meses (123,34% ao ano) aparece menor que o do empréstimo de 24 meses (124,07% ao ano) e, ainda, sem diferença na taxa de juros (de 119,37% ao ano).  O que eu acho que é isso? Acho que é erro do simulador, ou despesas relacionadas ao empréstimo que não estão informadas na tela.

OK, mas tudo isso é muito complicado. Como é que eu vou saber se o cálculo do banco está certo? Vale alguma coisa o CET vir no contrato do empréstimo/financiamento?

É complicado mesmo. O ideal é saber fazer a conta, ou ter auxílio de alguém que sabe. Mas essa não é a regra. A maior parte das pessoas não tem acesso ao conhecimento ou a quem o tenha.

Os órgãos públicos que podem ajudar nisso são o Banco Central e o Procon, mas ainda assim, não vai ficar fácil. No Banco Central, por exemplo, existem informações sobre juros (não é CET, é juros, que é uma parte do CET), tem calculadora para financiamentos com prestações fixas, mas o problema é que entender todas as contas e as diferenças entre elas exige conhecimento técnico do mesmo jeito.

O mesmo acontece com o contrato. Como questionar o Banco por não ter cumprido com o CET contratado? Só mesmo fazendo a conta e mostrando que o banco cobrou diferente do que está escrito… e ainda encontrando um advogado que consiga mostrar isso em juízo.

Mas então para que inventaram esse negócio de CET?

O Conselho Monetário Nacional e o Banco Central definiram e estabeleceram a obrigatoriedade de informação do CET com o intuito de aumentar a transparência nas operações das instituições financeiras e ampliar a proteção do consumidor. E, em alguma medida, conseguiram.

Por exemplo, se o seu problema for escolher a instituição para pedir um empréstimo de R$ 1.000,00, crédito pessoal, para pagar em 36 meses, o CET facilita a comparação. No caso que vimos acima, o Bradesco seria uma opção melhor. Consultando a Caixa, o resultado seria um CET ainda mais baixo – de 60,24% ao ano, contra mais de 100% dos dois bancos:

cet_caixa

Mas o aprimoramento das informações fornecidas pelas instituições financeiras é um processo contínuo. Para você ter uma ideia, usei Bradesco e Itaú e Caixa nas simulações porque facilitam o acesso do consumidor a seus respectivos simuladores.

No portal do Banco do Brasil é necessário informar o CPF para usar o simulador e o Santander informa que o CET está disponível nos canais de atendimento telefônico ao cliente. Inacreditável!

cet_bb

cet_santander

____________________

(1)É bom saber que em certas situações a taxa de juros pode ser menor para prazos mais longos, se bem que mais comumente para quem aplica dinheiro e não para quem toma emprestado.

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3 Respostas para “Custo Efetivo Total e a Rebimboca da Grampolheta

  1. Pois é, Denise. O triste é que o tal do CET é um cálculo ainda mais complexo e, o ideal, para proteger de fato o cliente do banco, seria ter indicadores menos complexos, que pudessem ser entendidos e usados sem ajuda.

  2. Pingback: O Índice Big Mac | Brasil+40·

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